Um Diálogo Necessário: O Que os Números do Trânsito na Paraíba Dizem ao Nosso Coração?
Por Abimadabe Vieira
Educadora de Trânsito, Escritora (AMCLAC – Cadeira nº 17) e Observadora Certificada do ONSV
Pare um instante.
Respire.
Pense em alguém que você ama. Alguém que espera você chegar em casa. Agora imagine que essa pessoa não volte porque alguém decidiu correr demais, usar o celular enquanto dirigia, avançar uma sinalização ou simplesmente acreditar que “não vai acontecer comigo”.
É difícil imaginar, não é?
É por isso que, quando falamos de trânsito, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de pessoas. De histórias interrompidas. De famílias que esperavam uma chegada e receberam uma notícia que jamais gostariam de ouvir.
Como educadora de trânsito e escritora, meu trabalho não é apenas olhar para estatísticas. É tentar enxergar o que existe por trás delas.
E os números mais recentes da Paraíba nos convidam a uma conversa necessária.
O Boletim de Acidentes de Transporte Terrestre (ATT), elaborado pela Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, por meio do SISGEVS-ATT, apresenta os registros do primeiro semestre de 2026 e faz a comparação com o mesmo período de 2025.
Houve uma redução de 8,4% nas notificações de ATT, que passaram de 16.471, no primeiro semestre de 2025, para 15.081 no mesmo período de 2026.
Também houve redução de 1,6% nas mortes registradas, de 427 para 420.
São reduções importantes.
Mas será que podemos simplesmente comemorar?
Quando falamos de 420 vidas perdidas em apenas seis meses, ainda estamos falando de 420 histórias que não tiveram continuidade. 420 famílias atingidas pela ausência. 420 nomes que deixaram de fazer parte da rotina de alguém.
Então, precisamos olhar além da porcentagem.
Vamos conversar sobre o ritmo do nosso dia a dia?
Entre janeiro e junho de 2026, foram registradas 9.109 notificações de queda de moto na Paraíba.
Fazendo uma conta simples, isso representa aproximadamente uma notificação a cada 29 minutos.
São cerca de 50 notificações de queda de moto por dia.
Pare e pense nisso.
Enquanto você lê este texto, alguém pode estar saindo de casa de motocicleta. Alguém pode estar indo trabalhar, estudar, levar um filho, buscar alguém ou simplesmente voltando para casa.
A motocicleta faz parte da vida de milhares de paraibanos. Mas a vulnerabilidade de quem está sobre duas rodas também precisa fazer parte da nossa conversa sobre segurança viária.
E há outro número que chama atenção.
Foram 15.081 notificações de Acidentes de Transporte Terrestre (ATT) no primeiro semestre de 2026.
Em uma conta aproximada, isso corresponde a uma notificação a cada 17 minutos.
É muito mais do que uma estatística.
São registros de situações que chegaram aos hospitais sentinela acompanhados pela vigilância da saúde.
E quando olhamos para as mortes, encontramos outro dado que precisa nos fazer parar.
Foram 420 mortes registradas entre janeiro e junho de 2026.
Isso representa uma média de mais de duas vidas perdidas por dia.
Se, apenas como exercício matemático, esse mesmo ritmo permanecesse durante todo o ano, chegaríamos a aproximadamente 840 mortes.
Isso não é uma previsão oficial.
É justamente o tipo de projeção que deveria nos incomodar o suficiente para perguntarmos:
O que podemos fazer para que esse número não se confirme?
Quem está mais exposto?
O boletim também revela um perfil que precisa receber nossa atenção.
A maior concentração de notificações está entre pessoas de 20 a 29 anos, com 4.684 registros no primeiro semestre de 2026.
Quando observamos as faixas de 20 a 49 anos, chegamos a 9.949 notificações.
Estamos falando de uma população predominantemente adulta, em plena idade produtiva, formada por pessoas que trabalham, estudam, sustentam famílias, cuidam de filhos, constroem projetos e movimentam a sociedade.
E existe outro aspecto importante:
Mais de 10 mil notificações envolveram pessoas do sexo masculino — foram 10.618 registros.
Esse dado também precisa entrar na nossa conversa.
Não para apontar culpados.
Mas para refletir sobre comportamentos.
Ainda existe, especialmente entre homens jovens, uma perigosa cultura de invulnerabilidade: a sensação de que velocidade é habilidade, que correr “só um pouquinho” não faz diferença, que o capacete é apenas uma obrigação, que o celular pode ser usado rapidamente, que aquela ultrapassagem “dá tempo”.
Até o momento em que não dá.
O trânsito não pode depender da sorte
Estamos caminhando para os últimos meses do ano, um período que costuma trazer mais deslocamentos, encontros, viagens, festas e circulação nas ruas e rodovias.
É justamente quando precisamos redobrar a atenção.
Não podemos esperar uma tragédia para reconhecer que determinado comportamento era perigoso.
Não precisamos conhecer pessoalmente uma vítima para compreender o valor de uma vida.
E não precisamos esperar perder alguém próximo para mudar nossa maneira de circular.
É aqui que entra uma ideia que considero fundamental: a Visão Zero.
A lógica é simples e profundamente humana: pessoas podem cometer erros, mas esses erros não deveriam resultar em morte ou lesões graves no trânsito.
Isso muda a forma como enxergamos a segurança viária.
Não basta dizer ao cidadão: “tenha cuidado”.
Precisamos construir ambientes mais seguros, fiscalização que proteja, engenharia de tráfego que considere o comportamento humano, educação permanente e políticas públicas capazes de reduzir os riscos.
Mas também precisamos assumir nossa parte.
Quem dirige precisa entender que velocidade não é sinônimo de competência.
Quem pilota precisa lembrar que, sobre uma motocicleta, o corpo é muito mais vulnerável.
Quem atravessa a rua precisa ser respeitado.
Quem transporta uma criança precisa colocar a segurança dela acima da pressa.
E todos nós precisamos compreender que o trânsito é um espaço compartilhado.
Antes de seguir, cuide de você. E cuide do outro.
Os números do boletim mostram avanços.
A redução de 8,4% nas notificações de ATT e de 1,6% nas mortes merece ser reconhecida.
Mas uma redução não significa que o problema deixou de existir.
Enquanto houver centenas de vidas perdidas, milhares de notificações e famílias convivendo com as consequências de um sinistro de trânsito, ainda teremos muito a fazer.
Por isso, minha reflexão hoje não é apenas para quem dirige, pilota, pedala ou caminha.
É para todos nós.
Para quem está no volante.
Para quem segura o guidão.
Para quem atravessa uma avenida.
Para quem educa.
Para quem fiscaliza.
Para quem planeja as cidades.
Para quem formula políticas públicas.
E, principalmente, para quem ama alguém e quer vê-lo voltar para casa.
Desacelere.
Não transforme alguns minutos economizados em uma vida inteira de arrependimento.
No trânsito, cada escolha pode proteger ou colocar uma vida em risco.
Que os números não sejam apenas números.
Que eles tenham rosto.
Que tenham nome.
Que nos façam lembrar que, por trás de cada registro, existe uma pessoa e, por trás de cada pessoa, existe uma história.
Enquanto houver uma única vida perdida no trânsito da Paraíba, nosso trabalho de educar, prevenir e proteger vidas não estará concluído.
Fonte
Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba – SES-PB / SISGEVS-ATT. Boletim ATT – Acidentes de Transporte Terrestre: janeiro a junho de 2025 e 2026. Dados referentes às notificações registradas nos hospitais sentinela e aos óbitos registrados no SIM/DATASUS/MS, conforme informações do boletim oficial.

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