Celular ao Volante: Quando a Distração Pode Custar uma Vida
Por Abimadabe Vieira | Educadora de Trânsito
Uma mensagem que chega. Uma notificação que desperta a curiosidade. Uma ligação que parece urgente. O motorista pensa que serão apenas alguns segundos, mas o trânsito não faz pausas enquanto alguém olha para uma tela.O uso do celular ao volante é um comportamento que merece atenção permanente de toda a sociedade. A distração compromete a percepção do ambiente, reduz a capacidade de reação e pode contribuir para colisões e atropelamentos, colocando em risco não apenas quem conduz, mas também pedestres, ciclistas, motociclistas e passageiros.
O problema não está somente nas mãos que deixam o volante ou nos olhos que se desviam da via. Está também na mente que deixa de acompanhar o que acontece ao redor.
A falsa sensação de controle
Muitos condutores acreditam que conseguem dirigir e, ao mesmo tempo, responder a uma mensagem, consultar uma rede social ou atender a uma ligação. Essa confiança, porém, não elimina os riscos da atenção dividida.
De acordo com informações divulgadas pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o uso do celular durante a condução aumenta em quatro vezes as chances de envolvimento em sinistros. O órgão também alerta para os riscos da distração entre pedestres e ciclistas.
O perigo se torna ainda mais evidente quando pensamos na velocidade. A 60 km/h, um veículo percorre aproximadamente 17 metros por segundo. Em apenas dois segundos, são cerca de 33 metros percorridos enquanto o condutor olha para a tela, caso permaneça sem observar a via durante todo esse intervalo.
Imagine o que pode acontecer nesse percurso: um pedestre inicia a travessia, um motociclista muda de posição, o veículo à frente freia inesperadamente ou uma criança surge na rua.
No trânsito, o imprevisto não espera que a mensagem seja respondida.
A distração tem três dimensões
O uso do celular pode reunir três formas de distração:
Visual: quando os olhos deixam de acompanhar a via.
Manual: quando uma ou ambas as mãos são retiradas do controle adequado do veículo para manusear o aparelho.
Cognitiva: quando a mente se concentra na conversa, na mensagem ou no conteúdo da tela, comprometendo a atenção necessária à condução.
Mesmo quando o aparelho está no suporte, o risco de distração não desaparece. Ler mensagens, selecionar opções ou digitar um endereço enquanto o veículo está em movimento pode desviar a atenção da tarefa de dirigir.
A tecnologia deve auxiliar o deslocamento, não disputar a atenção com a vida.
O que diz a legislação brasileira?
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece, no artigo 252, parágrafo único, que segurar ou manusear o telefone celular enquanto dirige configura infração gravíssima.
A penalidade é de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A utilização de fones nos ouvidos conectados a aparelho sonoro ou telefone celular durante a condução também é proibida pelo artigo 252, inciso VI, sendo classificada como infração média, com multa de R$ 130,16 e quatro pontos.
Essas regras não devem ser vistas apenas como mecanismos de punição. Elas representam medidas de proteção à segurança viária.
Entretanto, a fiscalização, embora indispensável, não consegue estar presente em todos os lugares e em todos os momentos. Por isso, a mudança de comportamento precisa ir além do receio de receber uma multa.
Precisamos desenvolver uma consciência de responsabilidade que permaneça mesmo quando não há um agente de trânsito por perto.
Educação para o trânsito: agir antes da tragédia
Como educadora de trânsito, compreendo que a prevenção começa quando a pessoa reconhece que suas escolhas têm consequências para outras vidas.
Educar não significa apenas apresentar leis, multas e proibições. Significa ajudar cada cidadão a compreender o espaço coletivo, reconhecer os riscos e desenvolver atitudes de respeito e responsabilidade.
O condutor precisa entender que não está sozinho na via. Ao seu redor existem pessoas com diferentes condições de mobilidade, crianças, idosos, trabalhadores, famílias e usuários vulneráveis que dependem de decisões responsáveis.
A educação atua justamente nesse espaço entre conhecer a regra e escolher cumpri-la por consciência.
Não basta saber que o celular pode provocar uma distração. É necessário compreender que aquela distração pode atingir alguém que não teve qualquer participação na decisão de utilizá-lo.
Pequenas atitudes que protegem vidas
A prevenção pode começar antes mesmo de ligar o veículo:
Programe o GPS e organize o trajeto antes de sair.
Ajuste o som e outras configurações com o veículo estacionado.
Ative o modo Não Perturbe, quando disponível.
Evite ler, digitar ou manusear o celular durante a condução.
Se precisar utilizar o aparelho, pare em local permitido e seguro.
Ao caminhar ou atravessar a rua, mantenha a atenção no ambiente e observe as condições da travessia.
São atitudes simples, mas que expressam uma escolha fundamental: colocar a segurança acima da pressa.
Uma conversa que precisa continuar
Recentemente, tive a oportunidade de conversar sobre esse tema em uma entrevista ao vivo na TV Arapuan, com a jornalista Thaisa Aureliano. A participação reforçou a importância de ampliar o debate sobre o uso do celular ao volante e de levar informação educativa para além dos espaços tradicionais de formação.
Agradeço à equipe da TV Arapuan pelo espaço concedido a uma pauta tão necessária. Falar sobre segurança no trânsito é contribuir para que mais pessoas reconheçam os riscos e compreendam que a prevenção depende de atitudes cotidianas.
A entrevista também deixa uma reflexão: quantas vezes consideramos urgente aquilo que pode esperar apenas alguns minutos?
Uma mensagem pode aguardar. Uma ligação pode ser retornada. Uma notificação pode permanecer na tela até que seja seguro consultá-la.
A vida, porém, não pode ser colocada em espera.
Por trás de cada pessoa que circula nas ruas e rodovias existe uma história, uma família e alguém que deseja voltar para casa.
No trânsito, não basta enxergar o caminho. É preciso estar presente, atento e consciente de que a vida do outro também depende das nossas escolhas.
Educar para o trânsito é, acima de tudo, educar para a vida.
Desacelere. Seu bem maior é a vida.
Vídeo da entrevista

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