Quando os números sangram: o custo humano do trânsito na Paraíba e o chamado à mudança
Por: Abimadabe Vieira – Escritora, Educadora de Trânsito e Membro da AMCLAC (Cadeira nº 17)
Por trás de cada linha preenchida em um relatório de hospital, existe uma cadeira vazia no almoço de domingo, um pai que não voltou para buscar o filho na escola ou uma jovem que teve seus sonhos interrompidos em uma mesa de cirurgia. Como educadora de trânsito, recuso-me a tratar a dor como mera estatística. Os dados oficiais de janeiro a agosto de 2026 das redes de saúde da Paraíba não são apenas contagens: são um grito coletivo de socorro que nos convoca à reflexão.
Na Semana Nacional de Trânsito deste ano de 2026, ecoamos com urgência o tema: "Desacelere, seu bem maior é a vida". Neste sábado, 19 de setembro, convido você a parar e cronometrar a nossa rotina. A frequência com que vidas e saúde são comprometidas no asfalto paraibano nos convida a agir. Os dois maiores Hospitais de Emergência e Trauma do estado — situados estrategicamente em João Pessoa e Campina Grande — cumprem o papel crucial de acolher e salvar acidentados vindos de todas as regiões da Paraíba. Juntos, esses centros de referência registraram 16.027 atendimentos por sinistros de trânsito em apenas 243 dias.
Quando traduzimos essa realidade para o nosso cotidiano, a dimensão humana se revela:
São 66 paraibanos dando entrada diariamente nas emergências, feridos ou mutilados.
A cada 20 minutos, uma pessoa dá entrada nesses hospitais vítima do trânsito.
A cada 2 horas e meia, quase 3 famílias têm a sua rotina abruptamente interrompida.
E o mais doloroso: diariamente, a Paraíba perde, em média, 2 de seus filhos para a violência viária — somando 578 óbitos em oito meses.
Estes números não apontam culpados individuais; eles revelam um desafio coletivo que demanda o esforço unificado de toda a sociedade e de todos os agentes públicos.
A fragilidade exposta: acolher e proteger os mais vulneráveis
O aspecto mais sensível desse diagnóstico pedagógico é identificar quem mais precisa da nossa atenção e proteção nas vias. Ao olharmos para as três categorias mais expostas — pedestres, ciclistas e motociclistas —, constatamos que elas representam 94,75% de todos os acidentados acolhidos pelas equipes de saúde do Trauma no estado.
O desafio sobre duas rodas (Motociclistas): Representa o cenário mais expressivo da nossa realidade, com 13.819 atendimentos — uma média de quase 57 trabalhadores socorridos por dia. A motocicleta tornou-se um instrumento essencial de trabalho e locomoção. Sob a ótica da Visão Zero, entendemos que garantir a segurança desses condutores exige vias adaptadas, moderação de velocidade e uma cultura de convivência harmoniosa entre todos os modais.
O direito ao caminhar seguro (Pedestres): Foram 737 atropelamentos registrados no período. O pedestre, por sua própria condição física, necessita de máxima prioridade e cuidado nas vias urbanas. Somente no mês de agosto, 76 pessoas foram atropeladas em João Pessoa. Esse dado reforça a importância de continuarmos investindo na ampliação de travessias seguras, calçadas acessíveis e sinalização educativa.
A sustentabilidade no trânsito (Ciclistas): Foram registrados 630 ciclistas acidentados no período. Quem opta pelo transporte ativo e sustentável necessita da expansão gradativa de ciclovias e ciclorrotas conectadas. Em julho, por exemplo, Campina Grande registrou 41 atendimentos a ciclistas feridos. À luz do conceito de Visão Zero, esses dados demonstram a importância de fortalecermos a infraestrutura de proteção e a moderação de velocidade, harmonizando os veículos motorizados com o transporte ativo.
A municipalização como estratégia de cuidado e prevenção
Para avançarmos na construção de um trânsito mais seguro, precisamos fortalecer a gestão pública local em todo o território paraibano. Atualmente, dos 223 municípios da Paraíba, cerca de 41 têm o trânsito municipalizado (integrado ao Sistema Nacional de Trânsito).
Os grandes hospitais de João Pessoa e Campina Grande fazem um trabalho heroico ao atender demandas de todo o estado. No entanto, quando os municípios investem na municipalização do trânsito, eles ganham autonomia para planejar a engenharia viária local, implantar sinalização adequada, realizar fiscalizações educativas e coletar dados precisos.
A municipalização não deve ser vista como uma exigência burocrática, mas sim como uma oportunidade valiosa de proteção à vida. Estruturar os órgãos locais de trânsito é o caminho para descentralizar o cuidado, prevenir acidentes nas cidades do interior e aliviar a sobrecarga na macrorrede de saúde estadual.
Acolhendo o Visão Zero nos bairros populares e a educação infantil
Para alcançar resultados duradouros, propomos a aplicação estratégica dos princípios da Visão Zero — a premissa de que nenhuma morte no trânsito é aceitável —, com atenção especial aos bairros mais populares e periféricos. É nessas comunidades que encontramos a maior concentração de pedestres, ciclistas e motociclistas em seus deslocamentos diários para o trabalho e a escola. Investir em engenharia preventiva, moderação de velocidade e educação comunitária nesses locais é salvar vidas na raiz do problema.
Além disso, a verdadeira transformação nasce na infância, onde os valores de respeito e cidadania são semeados. É com esse propósito que o Instituto Anjinho Azul, no bairro de Mangabeira, em João Pessoa, vem promovendo uma programação educativa intensa ao longo desta semana.
Os alunos estão trabalhando os cinco volumes da Coleção Amigos do Trânsito, de minha autoria, por meio de oficinas, debates e dinâmicas focadas na empatia e na segurança viária. Nossas crianças estão aprendendo, na prática, que desacelerar é um ato de amor e responsabilidade com o próximo.
A culminância desse projeto será realizada no dia 25 de setembro de 2026, às 15h, na sede da própria escola, com uma exposição das produções desenvolvidas pelos estudantes.
Um convite institucional e afetuoso de parceria pela vida
Nenhum órgão, instituição ou educador transforma o trânsito sozinho. Para que a segurança viária avance na Paraíba, precisamos somar o rigor técnico dos gestores à sensibilidade da comunidade.
Aproveito este espaço para convidar carinhosamente os parceiros, representantes e autoridades dos órgãos de trânsito da Paraíba — instituições com as quais tenho a honra de caminhar lado a lado — a prestigiarem este momento. A presença de vocês será uma linda chancela ao empenho dessas crianças, que já estão se tornando cidadãos conscientes e futuros condutores exemplares.
Com igual orgulho literário e pedagógico, estendo este convite às minhas queridas confreiras da Academia da Mulher Cabedelense de Letras, Artes e Ciências Litorânea (AMCLAC). Será uma alegria imensa receber vocês para celebrarmos juntas a união entre a literatura, a educação e a preservação da vida.
Serviço do Evento:
Data: 25 de setembro de 2026 (Sexta-feira)
Horário: 15h
Local: Escola Instituto Anjinho Azul
Endereço: Rua Funcionário Odon Almeida, 38 – Mangabeira, João Pessoa - PB
Humanizar o trânsito é reconhecer que a vida do outro importa. Nenhuma pressa ou compromisso justifica uma vida perdida na estrada. Desacelere: o seu bem maior — e o de quem caminha ao seu lado — é a vida.
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