As Duas Rodas que Param o Futuro: quando a necessidade de renda coloca nossos jovens entre a escola e o risco do trânsito

 As Duas Rodas que Param o Futuro

Por Abimadabe Vieira

Uma contribuição pedagógica e propositiva para o debate sobre educação, juventude, trabalho e segurança viária

Por Abimadabe Vieira – Educadora de Trânsito e Pedagoga



No dia 22 de setembro, duas datas nos convidam a olhar para a juventude por diferentes ângulos: o Dia Mundial Sem Carro, inserido no contexto da Semana Nacional de Trânsito, e o Dia Nacional da Saúde de Adolescentes e Jovens.

É uma coincidência de calendário que merece reflexão.

Enquanto discutimos mobilidade, trânsito e qualidade de vida, também precisamos olhar para os jovens que circulam diariamente pelas nossas cidades em busca de estudo, trabalho, renda e oportunidades.

Como educadora, uma imagem me preocupa: a cadeira vazia na sala de aula.

Não porque todo jovem que trabalha abandone a escola. Não porque trabalhar seja errado. E muito menos porque o delivery seja, sozinho, responsável pela evasão escolar.

O problema é mais amplo.

O que acontece quando a necessidade de trabalhar começa a competir com o direito de estudar?

E o que acontece quando esse trabalho coloca o jovem diariamente sobre duas rodas, exposto aos riscos do trânsito?

Um problema que começa antes da motocicleta

Os números do IBGE ajudam a tirar essa discussão do campo da impressão pessoal.

Na PNAD Contínua de 2024, o IBGE identificou 8,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos que não haviam concluído o ensino médio.

Quando perguntados sobre o principal motivo para terem abandonado a escola ou nunca a terem frequentado, 42,0% apontaram a necessidade de trabalhar.

Esse dado merece atenção.

Ele não diz que esses jovens trabalham com delivery. Também não permite afirmar que a motocicleta seja a causa do abandono escolar.

Mas revela algo importante: a necessidade de renda é uma das principais razões que afastam jovens da trajetória escolar.

É nesse ponto que educação, trabalho, renda e mobilidade precisam começar a ser discutidos juntos.

E onde entram as duas rodas?

A motocicleta ocupa hoje um espaço importante na mobilidade e no trabalho brasileiro.

Segundo o Atlas da Violência 2026, o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024. As motocicletas responderam por 41,6% dos óbitos viários, e as mortes em sinistros envolvendo motocicletas cresceram 38% entre 2019 e 2024.

A Organização Mundial da Saúde também alerta que as lesões causadas pelo trânsito permanecem como a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos no mundo.

Portanto, não estamos falando apenas de trânsito.

Estamos falando de saúde pública, educação, trabalho, renda, mobilidade e proteção da juventude.

O próprio Ministério dos Transportes, por meio do PNATRANS, trabalha com a abordagem de Sistema Seguro e Visão Zero, reconhecendo que a segurança viária depende da interação entre pessoas, veículos, vias, fiscalização, legislação, infraestrutura e políticas públicas.

Isso muda a pergunta.

Em vez de perguntar apenas:

“Por que o jovem se arrisca?”

também precisamos perguntar:

“Que condições estamos oferecendo para que ele possa estudar, trabalhar e voltar para casa com segurança?”

O Pé-de-Meia ajuda, mas não encerra a discussão

O Brasil já possui uma política importante de permanência escolar: o Pé-de-Meia.

No ensino médio regular, o estudante pode receber R$ 200 pelo incentivo de matrícula e até R$ 1.800 por ano pela frequência, além de R$ 1.000 por etapa concluída e R$ 200 pela participação nos dois dias do Enem, conforme as regras do programa.

O valor total pode chegar a R$ 9.200 por estudante.

É uma política de permanência escolar que merece ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla.

Mas existe uma questão que permanece:

como proteger o estudante cuja família precisa da renda do seu trabalho agora?

A resposta não precisa ser substituir o trabalho pela bolsa.

Pode ser construir caminhos para que estudar e construir uma trajetória profissional não sejam escolhas incompatíveis.

Um caminho possível: seis frentes para discussão

Estas propostas não pretendem apresentar uma fórmula pronta. São ideias para que governos, legisladores, educadores, trabalhadores, famílias e sociedade discutam soluções adequadas à realidade de cada território.

1. Fortalecer políticas de permanência escolar

Ampliar e aperfeiçoar políticas de apoio financeiro aos estudantes em situação de vulnerabilidade, articulando os programas federais com iniciativas estaduais e municipais, quando houver viabilidade financeira e legal.

A prioridade deve ser identificar o estudante em risco de abandono e agir antes que ele deixe a escola.

A experiência internacional com programas de transferência condicionada de renda, como o antigo Progresa, no México, oferece evidências de que esse tipo de política pode contribuir para aumentar matrícula e frequência escolar.

Mas a experiência também ensina que o desenho da política importa.

Não basta transferir dinheiro. É preciso acompanhar frequência, aprendizagem, vulnerabilidade e permanência.

2. Garantir que o transporte não seja uma barreira para estudar

O deslocamento também precisa entrar na política de permanência escolar.

Passe estudantil, gratuidade ou subsídio de transporte, conforme a realidade financeira de cada município ou estado, podem ser discutidos como instrumentos de acesso à educação.

A pergunta é simples:

quanto custa para um estudante chegar todos os dias à escola — e quanto esse custo pesa na decisão de permanecer estudando?

A política de mobilidade precisa enxergar o estudante não apenas como passageiro, mas como cidadão em formação.

3. Discutir a proteção de quem trabalha por plataformas

O trabalho por aplicativos já faz parte da realidade brasileira.

O Ministério do Trabalho e Emprego estima cerca de 4,3 milhões de trabalhadores envolvidos no trabalho plataformizado no país.

Não se trata de demonizar as plataformas nem de ignorar que elas oferecem uma fonte de renda para muitas pessoas.

Trata-se de discutir condições de trabalho.

Jornada, descanso, segurança, proteção social, transparência e saúde do trabalhador precisam fazer parte dessa discussão.

Em 2026, inclusive, existem propostas legislativas em tramitação no Congresso Nacional relacionadas à proteção de entregadores e motociclistas profissionais, pontos de apoio e regulamentação do trabalho por plataformas.

Esse debate precisa considerar também a realidade dos jovens e a necessidade de compatibilizar trabalho, formação e proteção.

4. Levar a educação para o trânsito para além das campanhas

Educação para o trânsito não pode aparecer somente em datas comemorativas.

Ela precisa dialogar com a vida real do adolescente.

No Ensino Médio, podemos discutir:

  • mobilidade urbana;
  • motocicleta;
  • bicicleta;
  • velocidade;
  • capacete e equipamentos de proteção;
  • álcool e direção;
  • celular;
  • primeiros socorros;
  • riscos do trabalho sobre duas rodas;
  • direitos e responsabilidades;
  • projeto de vida;
  • mundo do trabalho.

Essa proposta já encontra respaldo no próprio PNATRANS, que possui um eixo específico de Educação para o Trânsito e prevê ações voltadas ao ensino básico.

Educar para o trânsito também é preparar o jovem para compreender a cidade em que vive.

5. Ampliar oportunidades de aprendizagem e primeiro emprego protegido

Existe uma alternativa entre a sala de aula e o trabalho informal de alto risco: a aprendizagem profissional.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o contrato de aprendizagem combina formação teórica e experiência prática, com direitos trabalhistas e previdenciários.

Para adolescentes e jovens que ainda não concluíram a educação básica, a legislação estabelece a necessidade de matrícula e frequência escolar.

Além disso, menores de 18 anos não podem exercer atividades perigosas, insalubres ou noturnas nas condições proibidas pela legislação.

Políticas públicas podem aproximar escolas, empresas, entidades formadoras e jovens, ampliando o acesso a oportunidades protegidas.

O objetivo não é impedir o jovem de trabalhar.

É ajudá-lo a trabalhar sem abandonar seu processo de formação.

6. Criar políticas de proteção e formação para motociclistas profissionais

Se a motocicleta já faz parte da realidade do trabalho brasileiro, precisamos preparar melhor quem depende dela.

Uma política pública voltada ao motociclista profissional poderia integrar:

  • segurança viária;
  • direção defensiva;
  • manutenção preventiva;
  • uso correto dos equipamentos;
  • primeiros socorros;
  • prevenção da fadiga;
  • saúde do trabalhador;
  • educação financeira;
  • direitos e deveres;
  • pontos de apoio e descanso;
  • orientação para jovens que ingressam no mundo do trabalho.

O próprio PNATRANS já reconhece a necessidade de ações educativas relacionadas à condução segura de motofretistas e ciclofretistas.

Portanto, não precisamos começar do zero.

Precisamos transformar diretrizes em ações próximas da realidade.

Uma política não resolve sozinha

Talvez essa seja a principal conclusão deste debate.

Não existe uma única medida capaz de resolver a questão.

Uma bolsa pode ajudar, mas não substitui uma boa escola.

Uma escola de qualidade é fundamental, mas não resolve sozinha a pobreza.

O transporte gratuito ou subsidiado pode ajudar na permanência, mas não resolve a necessidade de renda da família.

A regulamentação das plataformas pode melhorar condições de trabalho, mas não substitui a formação profissional.

A educação para o trânsito é indispensável, mas não substitui infraestrutura segura, fiscalização e políticas de mobilidade.

O jovem precisa ser enxergado por inteiro.

Ele é estudante, mas também é filho, trabalhador, usuário da cidade, motociclista, ciclista, pedestre, futuro profissional e cidadão.

O que está em jogo

Quando uma cadeira fica vazia na sala de aula, nem sempre existe uma única explicação.

Às vezes existe desinteresse.

Às vezes existe dificuldade de aprendizagem.

Às vezes existe falta de apoio familiar.

E, muitas vezes, existe uma necessidade econômica que empurra o jovem para o trabalho antes que ele consiga concluir sua formação.

O dado do IBGE nos lembra que a necessidade de trabalhar está entre os principais motivos associados ao abandono escolar.

Os dados de trânsito nos lembram que circular pelas ruas brasileiras, especialmente sobre duas rodas, também envolve riscos concretos.

É nesse encontro que precisamos atuar.

Não se trata de escolher entre estudar ou trabalhar.

Trata-se de construir condições para que o jovem possa estudar, preparar-se para o trabalho e, quando trabalhar, tenha proteção e segurança.

Neste período de discussão de propostas para os próximos anos, fica uma pergunta para governos, legisladores e sociedade:

Que cidade queremos entregar aos jovens — uma cidade que lhes ofereça apenas caminhos para ganhar dinheiro hoje ou uma cidade que também lhes permita construir um futuro?

Proteger a juventude é também proteger a educação.

Proteger quem trabalha é também proteger a vida.

E proteger a vida no trânsito começa muito antes de alguém colocar um capacete.

Começa nas escolhas que fazemos enquanto sociedade.

#DeixaOJovemEstudar

Trabalho digno, educação, mobilidade segura e proteção para construir o futuro.

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