O desejo impossível de salvar Esperança Garcia

 Uma reflexão sobre a mulher escravizada que escreveu uma das mais importantes petições da história do Brasil e foi reconhecida pela OAB como a primeira advogada do país.

Há figuras históricas que cruzam o nosso caminho e exigem pouso em nossa alma. Para mim, essa figura é Esperança Garcia. Sempre que pronuncio seu nome, sinto um nó na garganta e os olhos marejados. Não consigo olhar para a sua trajetória com o distanciamento frio de quem apenas lê um documento antigo. Eu sinto a dor dela.

Em 1770, Esperança — uma mulher negra escravizada no Piauí — escreveu uma carta ao Governador da Província. Não era apenas uma carta; era uma petição jurídica corajosa, um dos mais importantes documentos da história do Brasil e um marco na luta pelo acesso à justiça. Sua coragem atravessou os séculos e levou o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 2022, a reconhecê-la oficialmente como a primeira advogada do Brasil.

Mas, diante de suas palavras, o reconhecimento histórico cede lugar, por alguns instantes, ao que realmente me comove: a dor de uma mãe.

Ela escreveu sobre a violência do feitor, sobre as noites sem sono, sobre a dor dilacerante de ter a família apartada e ver os filhos pequenos apanhando.

Sempre que pesquiso sobre seu legado, meu coração sofre um tipo de curto-circuito temporal. Sou atingida por um desejo urgente e quase infantil de violar as leis do tempo. Se eu pudesse, pegaria a estrada da história, invadiria aquela fazenda colonial e arrancaria Esperança dali. Gostaria de limpar as feridas do seu filho pequeno, enxugar as suas lágrimas e lhe dar o que o mundo cruel da época lhe negou: uma casa simples, com um quintal grande e cheio de árvores, onde ela pudesse ver seus filhos crescerem em total liberdade e paz.

Gostaria de olhar nos olhos dela e dizer:

"Vai ficar tudo bem."

Por muito tempo, carreguei um lamento quase culpado por ter nascido séculos depois, por estar em outro tempo e não ter podido ajudá-la quando ela gritou por socorro. Mas a maturidade e o afeto me ensinaram que o tempo das almas não segue o calendário dos homens.

Hoje, como membro da AMCLAC – Academia da Mulher Cabedelense de Letras, Artes e Ciências Litorânea, tenho a imensa honra de ter Esperança Garcia como minha patronesse. É através dessa cadeira acadêmica que compreendo meu verdadeiro papel. Eu não pude mudar o ano de 1770, mas posso transformar o presente.

Sempre que escrevo sobre Esperança, sempre que me emociono e compartilho a sua história, estou, de alguma forma, respondendo àquela carta. Tirar Esperança Garcia do passado colonial e trazê-la para o centro do debate intelectual, coroada e respeitada, é a forma de salvá-la que o tempo me permitiu. É provar que o fazendeiro e todo o sistema opressor falharam: eles queriam o silêncio, mas colheram a imortalidade dela.

A luta de Esperança Garcia continua viva em cada mulher que resiste, em cada mãe que protege seus filhos e em cada caneta que se levanta contra a injustiça nas praias e periferias de Cabedelo e de todo o Brasil.

Esperança, mais de duzentos anos depois, eu ouvi o seu chamado. Eu não pude estar lá no passado, mas estou aqui agora. E, através das minhas palavras, eu garanto: você nunca mais será esquecida.


"Não pude salvar Esperança Garcia em 1770, mas posso salvá-la do esquecimento todos os dias."

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Escola Estadual Professora Maria Jacy Costa abre a Semana da Pátria com civismo, emoção e participação do Exército Brasileiro

Exército Brasileiro promove manhã de integração, cidadania e educação na Escola Maria Jacy Costa

A Epidemia Invisível sobre Duas Rodas: o Sangramento Diário que Ceifa o Futuro da Paraíba