Juventude e Trânsito: A Urgência da Segurança Viária como Desenvolvimento Humano
Por Abimadabe Vieira
Há datas internacionais que convidam à celebração. O Dia Internacional da Juventude, instituído pelas Nações Unidas e celebrado em 12 de agosto, é uma delas. Mas também é uma oportunidade para examinar as condições concretas em que crianças, adolescentes e jovens estão crescendo, circulando, estudando, trabalhando e construindo seus projetos de vida.
Entre essas condições, a segurança no trânsito precisa ocupar um espaço mais importante na agenda pública.
O Cenário Internacional e a Infância Vulnerável
Os dados internacionais demonstram que não estamos diante de um problema secundário. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 1,16 milhão de pessoas morrem todos os anos em decorrência de sinistros de trânsito. As lesões provocadas pelo trânsito constituem atualmente a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos. Além das mortes, entre 20 e 50 milhões de pessoas sofrem lesões não fatais todos os anos, muitas delas com consequências permanentes e necessidade de reabilitação.
Quando observamos especificamente a infância e a adolescência, a dimensão do problema torna-se ainda mais preocupante. Relatório da UNICEF estima que 181.453 crianças e adolescentes de 0 a 19 anos morram anualmente em decorrência de lesões no trânsito. Mais de 90% desse impacto ocorre em países de baixa e média renda. Não se trata apenas da perda de vidas: são interrompidos processos educacionais, trajetórias profissionais, relações familiares e possibilidades de participação social que ainda estavam em formação.
A Dimensão Geracional e Coletiva do Problema
O problema também possui uma dimensão geracional.
Uma sociedade depende da renovação de suas gerações para manter suas instituições, sua força de trabalho, sua capacidade de inovação e sua própria continuidade social. Quando uma parcela significativa de crianças, adolescentes e jovens é perdida prematuramente por causas evitáveis, a consequência ultrapassa a família diretamente atingida. Há uma perda coletiva de capital humano, de capacidade produtiva e de possibilidades futuras.
É nesse ponto que a segurança viária deixa de ser apenas uma questão relacionada ao deslocamento.
Ela passa a ser uma questão de desenvolvimento humano.
A Realidade Brasileira e os Usuários Vulneráveis
No Brasil, os dados do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) ajudam a dimensionar essa realidade. Em levantamento referente a 2024, o ONSV identificou que os usuários vulneráveis — motociclistas, ciclistas e pedestres — representavam 61% das vítimas fatais do trânsito. O mesmo levantamento mostra que a maior concentração de mortes entre 20 e 24 anos ocorreu entre ocupantes de motocicletas: foram 2.508 mortes, correspondendo a 61% das fatalidades registradas nessa faixa etária.
Esses números precisam ser analisados para além da estatística.
Um jovem que morre no trânsito não é apenas uma unidade acrescentada a uma tabela de mortalidade. É uma pessoa que deixa de concluir seus estudos, de ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, de constituir uma família, de participar da comunidade e de desenvolver projetos que poderiam beneficiar outras pessoas.
A Parcela Silenciosa: Os Sobreviventes e as Sequelas
E existe ainda uma parcela silenciosa desse problema: os sobreviventes.
A OMS estima que dezenas de milhões de pessoas sofram lesões não fatais todos os anos em sinistros de trânsito. Muitas permanecem com deficiências temporárias ou permanentes e necessitam de atendimento médico, reabilitação e apoio familiar. Para uma criança ou um jovem, uma lesão grave pode alterar profundamente a trajetória escolar, profissional, econômica e social.
Abordagem Sistêmica: Indo Além do Comportamento Individual
Por isso, falar em juventude e trânsito exige abandonar uma visão limitada segundo a qual a responsabilidade pela segurança pertence exclusivamente ao comportamento individual.
O comportamento do usuário é importante, mas não é suficiente para explicar ou prevenir toda a violência viária. A própria OMS aponta a necessidade de combinar medidas relacionadas à velocidade, infraestrutura, legislação, fiscalização, segurança dos veículos, transporte público, proteção dos usuários vulneráveis e educação. Em 2026, a organização voltou a destacar a necessidade de acelerar a implementação dos compromissos assumidos mundialmente para reduzir pela metade as mortes e lesões no trânsito até 2030.
Essa perspectiva é particularmente importante quando falamos de jovens.
Adolescentes e jovens estão em uma fase de desenvolvimento marcada pela construção da autonomia, pela ampliação da vida social e, muitas vezes, pelo primeiro contato com veículos motorizados. A OMS reconhece que adolescentes apresentam maior propensão à exposição a determinados comportamentos de risco no trânsito, o que exige respostas específicas de educação, infraestrutura e proteção.
Construindo Ambientes Seguros e Ouvindo a Juventude
Portanto, não basta dizer aos jovens que tenham cuidado.
É necessário construir ambientes nos quais a escolha segura seja possível, compreensível e socialmente valorizada. É necessário que:
- As escolas tenham educação para o trânsito integrada à formação cidadã;
- Os municípios planejem espaços seguros para pedestres e ciclistas;
- Os motociclistas tenham condições adequadas de circulação;
- A fiscalização seja efetiva;
- A velocidade seja administrada de acordo com o risco;
- Os veículos ofereçam maior proteção;
- E as políticas públicas sejam acompanhadas por indicadores capazes de revelar se as medidas adotadas estão, de fato, produzindo resultados.
Também é necessário ouvir a própria juventude.
Os jovens não devem aparecer apenas como destinatários de campanhas educativas ou como números nas estatísticas de mortalidade. Precisam participar da construção das políticas que afetam seus deslocamentos, suas cidades e suas perspectivas de futuro.
O Futuro das Nossas Sociedades
A preocupação é ainda maior quando colocamos esses dados diante das transformações demográficas e sociais que o mundo atravessa.
As Nações Unidas destacam que metade da população mundial tem 30 anos ou menos e que as pessoas que hoje têm menos de 25 anos representarão mais de 90% da população em idade ativa em 2050. A juventude, portanto, não representa apenas o presente: representa uma parcela essencial da capacidade futura das sociedades.
É justamente por isso que a pergunta precisa ser ampliada.
Que sociedade estamos construindo quando permitimos que o trânsito seja uma das maiores ameaças evitáveis à vida de nossas crianças e jovens?
Não se trata de afirmar que o trânsito esteja literalmente "eliminando" uma geração. Essa seria uma interpretação inadequada dos dados. Mas é legítimo e necessário reconhecer que estamos perdendo, de forma prematura e evitável, uma parcela expressiva de pessoas que deveriam estar vivendo sua infância, sua adolescência e sua juventude.
Cada morte prematura interrompe uma trajetória individual. Quando essas mortes se repetem em escala nacional e mundial, produzem também um impacto coletivo.
Integração de Políticas Públicas e Compromisso Social
A discussão sobre segurança viária precisa, portanto, estar integrada às políticas de juventude, educação, saúde, trabalho, mobilidade urbana e desenvolvimento sustentável. A proteção de crianças e jovens no trânsito não pode ser responsabilidade isolada de um setor público ou de uma campanha anual. Ela precisa ser compreendida como compromisso permanente de Estado e de sociedade.
Neste 12 de agosto, o Dia Internacional da Juventude oferece uma oportunidade para olhar para esses números sob outra perspectiva.
Não apenas perguntar quantos jovens morreram no trânsito.
Mas perguntar quantos projetos de vida foram interrompidos, quantas famílias foram transformadas por essas perdas e quanto do nosso próprio futuro estamos deixando de construir quando permitimos que mortes evitáveis continuem acontecendo.
Essa talvez seja uma das dimensões mais importantes da segurança viária: proteger a mobilidade de hoje sem comprometer a sociedade de amanhã.

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